O Presidente Daniel Chapo afirmou que Moçambique continuará a pagar em 2026 o preço dos protestos pós-eleitorais, que causaram prejuízos de 27,4 mil milhões de meticais, enquanto analistas alertam que a agitação social persiste na memória dos moçambicanos e defendem maior esclarecimento sobre as mortes registadas no período.
MAPUTO, Moçambique — O Presidente da República, Daniel Chapo, afirmou, durante o informe à Nação realizado nesta quinta-feira, 18 de Dezembro de 2025, que Moçambique vai continuar a pagar, ao longo do próximo ano, o preço dos protestos pós-eleitorais ocorridos entre Outubro de 2024 e Março de 2025. Segundo o chefe de Estado, essas manifestações, que classificou como "violentas, ilegais e criminosas", afectaram a capacidade do Estado moçambicano de investir em sectores considerados prioritários, como água, energia, saúde e educação, obrigando o Governo a redireccionar recursos inicialmente destinados ao desenvolvimento para a reconstrução de infra-estruturas públicas e privadas, face a prejuízos estimados em 27,4 mil milhões de meticais.
Segundo as informações avançadas pela Deutsche Welle, o analista Dércio Alfazema sublinhou que os valores anunciados pelo Governo relativamente aos prejuízos materiais não devem ser encarados como definitivos, alertando para a dimensão humana da crise: "Além dos danos materiais, também houve danos humanos. Essa é uma situação que deve ser devidamente esclarecida."
De acordo com o comunicado divulgado durante o informe presidencial, Daniel Chapo destacou "sinais de estabilização da nação moçambicana", associados a reformas em curso, ao combate às desigualdades, ao diálogo nacional e à "aproximação real entre o Estado e os cidadãos." Contudo, o jornalista e analista político Luís Nhachote defendeu cautela perante este diagnóstico, considerando o contexto social ainda instável: "Eu vejo isso como algo complexo, porque a agitação social continua a se refletir numa série de coisas." Nhachote acrescentou, segundo a mesma fonte, que "na memória dos moçambicanos, esta imagem de medo e de terror continua", defendendo que "as ações do governo devem ser visíveis".
Conforme o comunicado divulgado no informe à Nação, o Presidente Chapo prometeu ainda a criação de uma nova arquitectura financeira pública, com o objectivo de impulsionar o crescimento económico, a industrialização e a inclusão financeira, iniciativas que, segundo o chefe de Estado, visam preparar o país para um ciclo prolongado de crescimento e modernização. Sobre esta proposta, Dércio Alfazema considerou que "essa nova arquitetura económica é urgente, uma vez que o país precisa de criar condições e buscar parcerias estratégicas para criar capacidade de gerar renda e receitas para o Estado."
Combate ao crime organizado
Segundo dados publicados no informe presidencial, Daniel Chapo apontou avanços no esclarecimento de casos ligados ao crime organizado, incluindo raptos, apresentando estes resultados como indicadores de maior eficácia da acção governativa nesta área. Para Dércio Alfazema, o informe do Presidente reconheceu a complexidade do fenómeno, considerando que "há indicadores muito claros e específicos que dão uma nota positiva e satisfatória para a governação neste tema sobre o crime organizado, tendo em conta que os casos de rapto vêm sendo esclarecidos". Já o jornalista Luís Nhachote entende, segundo a mesma fonte, que o Estado moçambicano continua a enfrentar limitações significativas na capacidade de resposta, num contexto marcado por redes criminosas que teriam capturado estruturas do próprio Estado.
O informe à Nação de Daniel Chapo traça um retrato de estabilização progressiva de Moçambique após os protestos pós-eleitorais, ainda que analistas ouvidos pela Deutsche Welle apontem para a persistência de desafios sociais, humanos e de segurança que continuam a exigir respostas visíveis por parte do Governo moçambicano.
Marcelino S. Francisco é editor-chefe do Top24horasnews com 8 anos de experiência em jornalismo económico.
